Enquanto você lê este texto, é bem provável que alguém, em algum lugar do seu local de trabalho, esteja de olho em uma aposta esportiva pelo celular. O hábito, que começou como diversão de fim de semana, se espalhou pelo horário comercial e hoje preocupa empresas de todos os tamanhos.
A dimensão do fenômeno impressiona. O volume movimentado pelas apostas no Brasil saltou de R$ 4 bilhões para R$ 30 bilhões por mês em apenas três anos, um crescimento superior a sete vezes, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio com base em dados do Banco Central. Somado ao longo desse período, o valor drenado do varejo brasileiro já chega a R$ 143,8 bilhões.
O impacto não fica só no bolso das famílias. Empresas de diferentes setores têm relatado aumento de faltas, pedidos de adiantamento salarial, endividamento de funcionários e queda de produtividade, enquanto os afastamentos por ludopatia – nome técnico para o transtorno do jogo compulsivo – cresceram 59,8% em 2025. Uma pesquisa da Creditas Benefícios, em parceria com Wellhub e Opinion Box, feita com centenas de gestores de RH, mostra a dimensão do problema dentro das empresas. A pesquisa revela que 66% dos gestores dizem que o vício em apostas compromete a saúde mental e física dos funcionários, 59% apontam queda de produtividade e 21% notam aumento da rotatividade de pessoal. A mesma pesquisa revela que mais da metade dos gestores brasileiros observa que colaboradores usam o horário de almoço para apostar.
Por que é tão difícil parar?
A ludopatia não costuma vir sozinha. Cerca de 82% das pessoas com transtorno do jogo apresentam outro transtorno mental associado, como depressão, ansiedade ou dependência química, o que ajuda a explicar por que a dependência de apostas já é discutida no Tribunal Superior do Trabalho, que avalia se ela deve receber tratamento semelhante ao da dependência química em casos de demissão por justa causa.
O problema também aparece nos números de endividamento. Segundo o Procon-SP, quase um em cada cinco apostadores gasta mais de R$ 1 mil por mês em apostas, e mais de quatro em cada dez apostadores já têm dívidas em atraso há mais de 90 dias, segundo o DataSenado. A Confederação Nacional do Comércio estima que cerca de 270 mil famílias passaram a um quadro de inadimplência severa por causa dos gastos com apostas, um retrato de como o hábito pode sair do campo do lazer e entrar no campo da compulsão sem aviso.
Mas não é a maioria de quem aposta que vive esse cenário. Segundo levantamento da Datatudo, 62% dos apostadores gastam até R$ 50 por mês com bets, valor equivalente a uma assinatura de streaming. O risco está justamente na possibilidade de qualquer pessoa migrar de um grupo para o outro sem perceber, quando não existe nenhuma estrutura financeira e emocional para a pessoa se manter na linha.
O que muda quando existe planejamento
Diante desse cenário, algumas empresas já criaram programas de acolhimento e campanhas internas de conscientização, encaminhando funcionários para tratamento em vez de simplesmente desligá-los. Do lado pessoal, a diferença entre apostar por diversão e apostar por desespero está quase sempre ligada à solidez do planejamento financeiro de cada um. Quem tem reserva de emergência, objetivos definidos e uma rotina de contribuição de longo prazo, como a que caracteriza a previdência complementar fechada, tende a enxergar a aposta como uma forma de perder dinheiro.
No fim das contas, a pergunta que vale fazer não é apenas “quanto eu apostei hoje”, mas “o que eu estava tentando resolver quando decidi apostar”? A resposta a isso talvez diga mais sobre a saúde financeira e emocional da pessoa.
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4 responses on "Ludopatia: quando a aposta deixa de ser jogo e passa a ser vício"
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O indivíduo perde o controle sobre o impulso de jogar, transformando o entretenimento em um comportamento compulsivo e destrutivo.
Não é falta de força, é transtorno.
Isso é muito serio!
Um problema muito sério.